Resenha - O Demonologista

Muitos já se perguntaram: “Como escrever um livro e fazer dele um best-seller?”. Certamente, poucos sabem responder a essa pergunta, na verdade nem eu sei. Porém, hoje iremos tratar do livro de um autor que faz isso constantemente. O seu nome é Andrew Pyper. A resenha de hoje no portal OnLiterário é sobre o livro O Demonologista.


Andrew Pyper é um escritor canadense e atua como professor universitário. Todos os seus trabalhos como escritor estiveram em evidência, ganhando prêmios e tornando-se best-sellers nos países onde foram traduzidos. O livro escolhido por nós é a sétima obra escrita pelo autor. O Demonologista, certamente, é o mais elogiado por leitores e críticos do mundo todo.
Aqui no Brasil, o livro foi publicado em 2015 pela editora DARKSIDE. Ele foi traduzido por Cláudia Guimarães e possui 328 páginas. O livro tem capa dura e conta com uma ótima qualidade gráfica, desde a concepção da capa e ilustrações até a diagramação do texto. Vale a pena agradecer à editora DARKSIDE pelo ótimo trabalho na produção desse livro.
O Demonologista é dividido em três partes: Noite Eterna – Primum, O Lago em Chamas – Secundus e Através do Éden – Tertium non Datur. Além disso, ainda há um posfácio dedicado ao escritor John Milton.
A narrativa é em primeira pessoa, sendo assim, deslumbramos o enredo a partir da visão de mundo desse narrador. A história é linear, com alguns pontos de flashbacks. Outra questão são os espaços da narrativa, que mudam constantemente, porém o autor trabalha muito os elementos descritivos, tornando a obra atraente e prendendo a atenção do leitor.
O personagem principal e narrador é David Ullman, um professor universitário de mitos antigos, mais especificamente de mitos relacionados ao demônio, seu material de estudo principal são os poemas de John Milton. Este, por sua vez, é bastante citado durante toda a obra.

 

Resumo

 

David Ullman é um professor do Departamento de Inglês da Universidade de Colúmbia em Manhattan. É especialista em mitos, porém sua maior fonte de pesquisa é o poema épico Paraíso Perdido do século XVII, de John Milton. Um texto que trata especificamente do demônio.
Ele é casado com Diane e tem uma filha chamada Tess. Porém, seu casamento está em crise, visto que Diane tem um caso com Will Junger, um professor de Física da mesma Universidade de Ullman. Para reconfortar toda a dificuldade de relacionamento que passa com a esposa, Ullman conta com ajuda da sua melhor amiga Elaine O’Brien, uma professora do Departamento de Psicologia.
Certo dia, ao chegar à sua sala no Departamento de Inglês da Universidade, ele encontra uma mulher que lhe faz uma proposta irrecusável. Nesta proposta, o professor deveria somente viajar para a Itália, mais precisamente Veneza, e assistir a um fenômeno e nada mais. No começo, ele recusa a proposta, porém algo o havia intrigado, e, por fim, ele aceita e recebe um montante bem vantajoso e um endereço.
Depois de se encontrar com O’Brien, que fala dessa viagem, é hora de Ullman ir para casa. Lá Diane anuncia que está indo embora. Sem nenhuma expectativa com esse fim de casamento, David se vê abandonado com sua filha Tess. Assim, ele decide levá-la para a Itália. Seria um passeio. Umas férias necessárias para os dois.
Isso, de fato, acontece, e eles vão a Veneza. Lá eles deslumbram a beleza da cidade e conhecem vários pontos turísticos. Porém, ele havia de realizar o trabalho para qual foi contratado: assistir a um fenômeno.
Ele, então, arruma uma mulher para cuidar de Tess e decide fazer o que era necessário.
Com o endereço que havia recebido em mãos, ele parte para encontrar e deslumbrar o tal fenômeno. Quando ele chega ao local, encontra um senhor que lhe entrega uma câmera e diz para ele filmar tudo. Ullman parte para o quarto, onde assiste ao fenômeno. Lá ele percebe que se trata de um caso de possessão. Ele filma o evento todo, no qual o personagem autodeclarado Legião lhe fala muitas coisas, porém o mais importante é uma sequência de números, que Ullman não compreende na hora.
Ele sai desesperado do local, sentindo-se perseguido. Ele se perde no meio dos vários canais de Veneza. Depois de algum tempo, ele está de volta ao hotel e pede que Tess arrume as malas imediatamente, pois eles iriam embora. Mas, ao se descuidar, Tess desaparece do quarto. Ullman entra em desespero, procura em todas as partes, até que decide ir ao restaurante do hotel no terraço. Lá ele encontra Tess na beirada da sacada, pronta para se jogar. Ele começa a falar com ela e percebe que não é Tess quem fala, e sim um outro ser.
Nesse momento, ele começa a tentar recuperar a sua filha, mas não consegue. Tess se joga e desaparece entre os diversos canais de Veneza. Depois de uma vasta procura realizada pelas autoridades locais, Tess é dada como morta. Porém, Ullman tem uma forte convicção de que ela ainda está viva, sob a guarda de algum espírito maligno.
Ullman retorna aos EUA e parte para uma longa jornada em busca de Tess. Nessa jornada, ele é perseguido não somente pelos espíritos e possessões, mas também por um homem autodeclarado Perseguidor. Certamente, o restante da história é brilhante, mas deixaremos para você, leitor, concluí-la, pois o final é de tirar o fôlego e totalmente inesperado.

O terror dentro do fantástico

 

O gênero terror na literatura é um subgênero dentro do fantástico. Para nós, isso é suficiente. Assim, O Demonologista, de Andrew Pyper, é analisado e pensado por nós através do conceito de Todorov sobre os gêneros narrativos e, dentre eles, o fantástico.
Era mais fácil David Ullman aceitar a realidade e dizer que tudo que era sobrenatural realmente não ocorrera, como todos os outros aceitaram. Isso seria menos cansativo, menos estressante e, logicamente, palpável. Mas ele tinha uma convicção. Tudo aquilo que ele havia estudado a vida toda e que ele nem acreditava que era real estava acontecendo com ele. Com isso, temos o rompimento entre o que é a realidade e aquilo que é do mundo fantástico.
Se ele aceitasse tudo aquilo, causaria estranhamento, e isso não pertence ao fantástico. Ao aceitar, ele aceitou todas as leis que gerem o fantástico. Por esse motivo, O’Brien começa a questionar a sanidade de Ullman.

 

Aquele que vive o acontecimento deve optar por uma das soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, um produto da imaginação, e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que são. Ou então esse acontecimento se verificou realmente, é parte integrante da realidade. (TODOROV, p. 148)

 

Essa regra também serve para nós, leitores, quando o livro causa igualmente estranheza, a leitura é interrompida e provavelmente não será retomada.
O gênero fantástico é incrível, porém é incrivelmente fácil passar do ponto na hora da escrita. Por esse motivo, Andrew Pyper é fenomenal. Ele mantém do começo ao fim a tensão, que muitos não conseguiriam manter durante tanto tempo. A leitura flui, e muitas vezes somos levados a pensar: “Será que ele manterá esse ritmo até o fim?”. E, surpreendentemente, assim ele o faz.
O final do livro também é formidável. Ele revela exatamente o que Ullman e nós, leitores, esperávamos: um mundo fantástico conectado ao que conhecemos na realidade. Um mundo que pudesse revelar e conceber um fim que nutriria na realidade os acontecimentos vividos por pai e filha, revelando a eles novas crenças, novas atitudes frente ao fantástico vislumbrado.    
   
Portanto, O Demonologista faz jus ao título de best-seller por onde passa. A narrativa tem uma tensão incomum em relação a obras do mesmo gênero hoje, inclusive a construção do personagem David Ullman, um personagem inquieto que foi contra as leis naturais para encontrar a sua filha. Para aqueles que também gostam de cinema, logo teremos a obra adaptada para as telonas.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Editora Moraes, 1977.

Artur Gueanori Por Artur Gueanori

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