Virtus: Um livro de cabeceira

 

Sabe aquele livro que dá vontade de ler diversas vezes? Falarei sobre um desses. Uma obra que envolve o leitor. Somos capazes de odiar alguns personagens, amar alguns outros e, até mesmo, notar semelhanças, como num espelho refletindo nós mesmos, numa linha tênue e paradoxal da própria relação humana, cheia de virtudes e desvios de condutas.

Virtus é um romance que segue a linha chick lit. Escrito pela autora paraense Patrícia Galúcio e publicado na íntegra no Widbook. Com uma escrita apurada, o livro proporciona uma agradável experiência de leitura. Ele possui 46 capítulos bem desenvolvidos, justificando de tal modo, a ótima divisão da história que concilia eixos paralelos ao enredo principal.

O que significa isso? Significa que além da trama principal, a escritora cuidadosamente conta a história de alguns outros personagens importantes, contextualizando, assim, o envolvimento deles. O narrador é em terceira pessoa. Podemos dizer também que a obra é linear, mesmo com a narração de tais histórias paralelas e acontecimentos simultâneos.

 

Um breve resumo do enredo

 

“Salma era uma jovem bela.

Tinha um rosto comprido, sobrancelhas delicadas,

olhos castanhos amendoados,

cabelos escuros e longos.”

 Patrícia Galúcio

 

Salma é uma advogada bem-sucedida e está prestes a casar-se com o também advogado bem-sucedido Heitor. Ambos trabalham no mesmo escritório de advocacia — V. F. Adamatti Advogados — do dr. Victor Adamatti. Ela teve uma infância difícil. Órfã de mãe, foi criada pelo pai. Tem uma amiga de longa data, a Luci. E, mesmo com personalidades distintas, elas cultivam uma ótima amizade.  

Antes do casamento, Salma e Heitor são convidados pelo dr. Victor para um jantar. Nessa ocasião, ele informa aos dois o seu desejo de deixá-los no comando da V. F. Adamatti Advogados. Um seria o presidente; e o outro, o vice. E ambos comandariam uma empresa vitoriosa. Para isso ele criou algumas exigências que os dois deveriam aceitar. Ao concordarem com os termos, Victor informa que a Salma seria a presidente e Heitor seria o vice. Tudo mudaria a partir desse momento, pois eles teriam grandes responsabilidades, diretamente ligadas às suas condutas.

Com os dias passando e o casamento chegando, Salma, além de digerir uma futura presidência, precisa conciliar tudo isso com um caso muito importante envolvendo um grande jogador do tênis mundial, Paul Andrew Lewis. É um caso de divórcio, no qual a ex-esposa cobra uma quantia que o esportista não pretende ceder. Em meio a conversas e reuniões, ela vai compreendendo o caso. Porém, entre os acontecimentos, é o próprio Paul quem descobre algo que poderia acabar com o casamento da Salma com Heitor. De fato, foi isso que ele fez, no entanto da maneira errada, transformando a advogada, brevemente, em vilã.

Sem adentrar mais nos fatos, podemos dizer que ela perdeu tudo: o casamento tão esperado e planejado, a presidência do escritório e o topo profissional da sua carreira. Ou não? O certo é que a Salma percorreu um novo caminho de autoconhecimento, reconstrução pessoal e profissional.

Pois bem, ficou curioso? Comece a leitura!

https://www.widbook.com/ebook/virtus

A intenção desta resenha é indicar uma obra agradável. O resto do resumo da história ficará para o leitor, em seus pensamentos e considerações depois de concluir a leitura do livro.

 

A heroína moderna

 

Não dá para ler Virtus sem enaltecer a nossa heroína Salma. Uma mulher representativa do seu tempo, que teve na sua formação os princípios condizentes para os seus atos durante todo o enredo. Heroína fácil de encontrar nas próprias páginas da vida real e muitas vezes injusta, mas que apresentam caminhos, ou sendas, para um final fundamentalmente feliz.

Mesmo com um declínio na obra, Salma mantém firme sua persistência e perseverança, a fim de provar ser capaz de reverter a situação adversa. Ela busca a justiça para reescrever fatos ligados diretamente à conduta moral e ética, tão preconceituosa e avassaladora contra a mulher ainda nos dias atuais.

Certamente, sei que este não é um texto científico e não o faço. Porém, não dá para deixar de transcrever ou deixar de lado um pensamento filosófico que tanto admiro:

 

“Pelo que vivenciei e compreendi na arte,

devo responder com minha vida

 para que o todo vivenciado e compreendido nela

 não permaneçam inativos.” [1]Bakhtin

 

Com isso não é preciso dizer mais nada, Salma é uma heroína responsável e responsiva por seus atos. Uma heroína fora dos cânones clássicos, por isso uma heroína moderna, capaz de ser exemplo e influenciar diversas pessoas. Ela sabe o que quer, e nada mudará as suas crenças ou preceitos estabelecidos.

 

A conversão de Najiha

 

Se a Salma é uma heroína moderna, muito provavelmente ela se espelhou em Najiha, sua mãe. Não poderia concluir este texto sem citar esta história paralela tão marcante, pois é visível em Najiha os mesmos elementos que citamos no comentário sobre a Salma. Ela era também uma mulher representativa da sua época e quase pagou, injustamente, um preço alto por isso.

O episódio “A conversão de Najiha” é tão palpável que até visualizamos e imaginamos a cena e os seus detalhes. Realmente parece um acontecimento da vida, daqueles que aparecem no noticiário: que abala questões ideológicas através de conflitos tão marcantes ainda hoje, principalmente no campo político e religioso; que faz pensar em tantas outras “Najihas” que não tiveram a mesma sorte.

Sem dúvida, essa pequena trama é fundamental para conhecermos melhor a heroína, que lutou por direitos numa época e num país um pouco diferente daquele da Salma. Logo, Najiha é merecedora de destaque.

Poderíamos citar mais algumas personagens marcantes e fundamentais para o enredo. Mas somente constataríamos a força de vontade e persistência delas durante todo o enredo. Portanto, a Salma como nossa heroína moderna é a representante, é quem dá voz para todas as outras mulheres no enredo e é a figura ícone da arte representando a vida, ou vice-versa.

 


[1] BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 3. ed. Trad. Maria Ermantina Galvão G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

 Por Artur Gueanori


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