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São duas histórias narradas pelo cinema, mas que trazem traços comuns e tocam profundamente a alma de quem assiste. Embora a adaptação de uma trama real para a sétima arte ganhe áurea mística, beira o sonho e flerta com a platônica perfeição, a licença poética justifica e avaliza os ajustes. Nada disso: edição, adaptação do roteiro, corte e estética para o convencimento do enredo exclui e atrapalha o poder das mensagens transmitidas nas sequências de dois ótimos longas, na minha avaliação: ‘A luta pela esperança’ (EUA, 2005) e ‘Mais forte que o mundo’ (BRA, 2016)
O primeiro traz a trajetória do boxeador James Walter Braddock, nascido em 1905, em Nova York, e que aos 21 anos, em 1926, começou a se destacar nos ringues. O segundo conta a história do brasileiro José Aldo da Silva Oliveira Júnior, nascido 81 anos depois, na Manaus de 1986 – ano em que o Brasil do Doutor Sócrates e treinado pelo grande Telê Santana foi eliminado na Copa do México nos pênaltis pela França, de Michel Platini.
James Braddock, casado e com filhos, viveu o que pode ser um dos piores pavores para um pai de família: o desemprego e a falta de comida dentro de casa. Após conhecer a fartura com êxito de suas lutas nos ringues e avanço nos negócios fora dele – investimentos, por exemplo – James foi um dos 16 milhões de americanos que perderam seus empregos com a crise de 1929. Assim como a Grande Depressão de 1929, James, esposa e filhos viveram a grande miséria e privação que legou aos americanos que haviam inspirado o mundo através do jazz, da modernidade, das bravuras e do cinema.
Como havia quebrado a mão direita nos ringues, para trampar como estivador e garantir o pão nosso de cada dia para as crianças e a patroa, teve que se virar com a esquerda. Diferentemente de alguns países latinos que, depois do absolutismo da direita indiferente, depositaram suas esperanças na esquerda e, lamentavelmente, se decepcionaram (pelas terras brasileiras e pelos vizinhos, lembrando que por aqui crise migratória vem do caudilhismo venezuelano), com Braddock houve justamente o inverso. O trabalho com o que no passado fora chamado de lado sinistro, o canhoto, lhe conferiu agilidade, resistência e potência. Certo dia, depois de anos de ostracismo e agruras provocadas pela falta de renda suficiente para o custeio da casa, lhe reaparece um antigo empresário propondo uma luta. A luta daria para tirar o dinheiro do mercado da semana e o leite. Braddock aceita e ressurge. Ressuscita feito Lázaro saindo do sepulcro ao ouvir a voz de Jesus: ‘Lázaro, vem para fora!’. Reconquista não só a glória, mas, o essencial para aquela fase de sua vida: a garantia do sustento da família.
James recebeu o apelido de Cinderella-Man, o Homem Cinderela, pois, assim como no conto de fadas, deixou a origem humilde para a glória.
O Homem Cinderela tem sua versão brasileira. Talvez, se chamá-lo assim fora de contexto ele poderá me neutralizar num único golpe e finalizar a luta sem mesmo que eu perceba que José Aldo se transformou na sucuri que enrolava o boi na história repetidamente contada por seu pai, Zé Aldo.
A relação conturbada com o pai – que recaía na dependência do álcool – e a vida difícil na periferia de Manaus provocaram a fúria insana que explodia nos ringues. Em ‘Mais forte que o mundo’, a história de Zé Aldo é narrada para um Brasil que oficialmente acumula mais de 13 milhões de desempregados e passa por uma das piores crises de identidade política de todos os seus mais de cinco séculos de história. Lideranças que antes eram autoridades, com poder de comando e responsáveis pelos gastos públicos, acabam indo para a cadeia a cada semana diante das novas fases da Operação Lava Jato. É a luta contra a corrupção, corrupção que tira da criança o direito de se alimentar, de uma escola digna e de saúde eficiente. Zé Aldo, com sacrifício, determinação e confiança, ultrapassou os limites que o Brasil lhe impôs. Também conseguiu superar os próprios limites emocionais e compreender por outro viés aquilo que lhe afetava internamente. Primeiro foi um campeão fora dos ringues, depois se tornou o primeiro campeão dos pesos pesados do badalado UFC. Fama e glória. Vida e luta. Persistência e dedicação. Queda e sucesso. Saber lidar com estas circunstâncias e aprender com cada uma: essa é a luta verdadeira. Os Homens Cinderelas nos ensinam, cada um de seu modo e em seu tempo, que é justamente na resistência, na capacidade de suportar porrada sem desistir, sem desmaiar e nem amolecer, que se esconde o grande campeão.
Ramon Barbosa Franco, 38, é jornalista e escritor, autor dos livros ‘Getúlio Vargas, um legado político’, ‘A próxima Colombina’ e ‘Contos do japim’. E-mail:
Por Ramon Franco
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