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Nesta série de dez artigos intitulada SAMBA DE BUMBO: A VERTENTE PAULISTA DESCONHECIDA, o intuito será apresentar o samba de maneira sistemática, considerando suas raízes históricas, vertentes, relevância social e em especial, a vertente paulista, pouco conhecida atualmente devido a seu caráter pouco comercial.
Além disso, cada artigo trará uma associação relevante a literatura brasileira, considerando autores, características literárias, períodos históricos e estudos feitos por poetas, dramaturgos e romancistas. O intuito é expor a história de um dos principais gêneros musicais do país, vinculado a cena poética nacional, ao longo dos últimos dois séculos.
DAS RAÍZES DE UM GÊNERO SOCIAL
As raízes do samba foram cravadas ainda na época do Brasil colonial, com a vinda de mão de obra escrava estrangeira, a princípio de Angola e do Congo. Sua história nos arremete as origens da música brasileira, assim como o maxixe e o lundu.
O ritmo nasce de “uma espécie de dança em que o dançarino bate contra o peito do outro” (SEVERIANO, 2006) conhecida como di-semba e outros estilos tribais, mesclado à musicalidade de nativos brasileiros que aqui já se expressavam musicalmente. Entre os angolanos, samba é um verbo, que significa “cabriolar, brincar, divertir-se como cabrito”. Ainda segundo Caldas (2010, p. 35):
Trata-se de um sincronismo musical em que, originalmente, estão presentes a polca europeia, que lhe forneceu os movimentos iniciais, a habanera, influenciando o ritmo, o lundu e o batuque, com o sincopado e a coreografia, e o “jeitinho” brasileiro de cantar e encartar, como disse Mário de Andrade.
Sem esquecer, é claro – para formatação do samba – da alegria africana que, a despeito de todos os desmandos e exploração sofridos, mantinham-se ligados às suas crenças e costumes, influenciando, e muito, não só a musicalidade, mas todas as formas de arte desenvolvidas no Brasil, a partir de sua chegada involuntária a nossa pátria.
A princípio, acostumou-se a descrever o movimento da música como umbigada, que como explica Sandroni (2012, p. 74), “(...) é o gesto coreográfico que consiste no choque dos ventres, ou umbigos, e que tem uma função precisa no desenrolar de certas danças, (...) sua ocorrência foi registrada inúmeras vezes nas danças dos negros brasileiros”. O autor e historiador segue discorrendo sobre a importância dessa dança, registrada dês do século XIX, no Brasil e também na África, sendo um gesto no qual se organizava certas danças negras. Ainda quanto a sua dinâmica, ele esclarece que:
(...) todos os participantes formam uma roda. Um deles se destaca e vai para o centro, onde dança individualmente até escolher um participante do sexo oposto para substituí-lo (os dois podem executar uma coreografia — de par separado — antes que o primeiro se reintegre ao círculo). Todos os participantes batem palmas e repetem um curto refrão, em resposta ao canto improvisado de um solista. (...) A umbigada é o gesto pelo qual um dançarino designa aquele que irá substituí-lo. (SANDRONI, 2012, p. 75).
Samba de roda ou rodas de batuque é a variante mais tradicional e, segundo pesquisas históricas, foi umas das bases de formação do estilo que conhecemos hoje, pois está associada à dança mencionada. Era usualmente tocado por um grupo de pandeiro, atabaque, berimbau, viola e chocalho, ganhando vida por cantos e palmas. Apesar de esta vertente originar-se do estado da Bahia, é no Rio de Janeiro que vai ganhar cor e forma, “(...) o samba é um acontecimento musical essencialmente urbano e mais precisamente carioca” (CALDAS, 2010, p. 36).
No final do século XIX, houve uma forte efetivação dessa variação rítmica, que, a princípio, era dividida em dois grupos característicos. O samba chula, que dispunha de cantores que gritavam a chula – espécie de poesia. A dança só iniciava depois desse expediente, quando uma pessoa por vez sambava no meio da roda, ao som do conjunto musical e palmas. O segundo era o samba corrido, nesta variação, todos sambavam enquanto dois solistas e o coral se alternavam no canto.
“A história do samba é uma evocação de um passado integrado na história do Brasil” (ALVES, 1976, p.13), portanto, pode-se dizer que o samba nasceu de uma mescla de essencialmente duas culturas, sob o chicote de um colonizador. Recebe influência de ambas, segundo seus costumes e valores: dos africanos veio o culto aos orixás e da civilização portuguesa provêm a manifestação por meio da viola, do pandeiro e da língua utilizada nas melodias.
REFERÊNCIAS
ALVES, Henrique Losinskas. Sua Excelência - O Samba. 2. ed. São Paulo: Símbolo, 1976. 174 p.
CALDAS, Waldenyr. Iniciação à Música Popular Brasileira. 5. ed. Barueri: Amarilys, 2010. 106 p.
SANDRONI, Carlos. Feitiço Decente: Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917 - 1933). Rio de Janeiro: Zahar, 2012. 235 p.
SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras. 6. ed. Rio de Janeiro: 34, 2006. 366 p.
Por Milton Alves